You can scroll the shelf using and keys

nighty-night

26 de October de 2010

Eu aprendi a dirigir aos 11 anos, com meu pai. Meu irmão, 8 anos mais novo, aprendeu aos 9.

Dirigir. Uma das coisas que meu pai tinha que ensinar aos filhos antes de morrer, pra que estivéssemos preparados da melhor maneira possível, quando a morte dele chegasse.

Meu pai também me ensinou a sonhar ouvindo Ella Fitzgerald, e pensar na vida real ouvindo Vinicius. E é ouvindo Ella que eu escrevo este post.

Não dá pra dizer que perder o pai aos 20 anos é um tragédia. Provavelmente, tragédia maior (olhando de fora), foi pro meu irmão, que tinha 12.

Meu pai era um sujeito notável. Tinha 30 anos quando minha mãe, aos 18 foi morar com ele.

Minha avó materna avisou: “Um homem de 30 anos, ainda solteiro? Algum defeito ele tem”. Ainda ela, se espantou quando conheceu o futuro genro: “Este é o príncipe encantado?”.

De fato não parecia. Era baixinho, gordinho, desbocado e meio careca. E já tinha 30 anos, solteiro.

(30, solteira. 43 anos depois, e longe de ser a princesa encantada)

Casaram em 69, só no civil. Ele tinha certeza que não era o homem da vida da minha mãe, e não achava certo que ela desperdiçasse a bênção divina, com o homem não-ideal.

Em 79, enfartou. Minha mãe tinha 29 e achou que fosse ficar viúva do príncipe desencantado. Engravidou no começo de 80, no que seria uma produção independente, e semente dele no mundo.

Só que ele não morreu, e eu nasci. Ela tinha, em 8 de outubro de 80, 30 anos.

Meu pai não morreu, mas teve dos médicos um prognóstico de 3 anos de vida. Decidiu se afastar de todos, querendo diminuir a dor da perda. Mas, as meninas da vida dele eram próximas demais, e importantes demais para permanecerem distantes. Dois anos depois da separação, casaram-se de novo.

Sim, meu pai e minha mãe. Ainda sem cerimônia religiosa.

Em 88 nasceu meu irmão.

Meu irmão diz em tom de brincadeira que eu sou assim, desse jeitinho, porque sou filha de um casamento desfeito, e ele filho do casamento que deu certo. Deu certo mesmo, até a morte os separar, 10 anos atrás.

Fato é, que ele voltou pra casa e nossa família seguiu. Sempre com essa sensação de viver intensamente e fazer diferença. Um plano ambicioso, que deu certo.

“Pai,

A diferença do mundo com e sem você é indescritível, um buraco. Tento preencher com todo tipo de coisa, de amores, de planos, de amigos, de dores, de prazeres. Nada funciona. O vazio fica aqui, e eu que não sabia quem eu era direito, quando você morreu, dez anos depois sigo sem saber. Não me vejo refletida em ninguém. Não sei se é hora de sonhar ouvindo Ella, ou agir ouvindo Vinicius.

Seguimos todos sem você. Passou o pavor inicial, a falta física, vender teus carros, doar suas coisas, guardar as canetas, os quadros, os relógios, a supresa das hortências do jardim que não morrem mas não dão mais flores…

Sei lá, Pai. É bem foda. A vida, e o mundo, não exatamente colaboram. E se tudo der errado? Quem me leva pra jantar, e me diz que vai ficar tudo bem, com honestidade nos olhos? Com quem eu brigo, quando o mundo me bate, em consequência da tua megalomania? Quando os desenlaces das tuas decisões, não são os que você imaginou? Com quem eu divido o medo?

Fácil aceitar a morte, difícil é viver com o nunca mais.”

Talvez ele tenha voltado porque sabia, que sem ele, ficaríamos perdidas.

Hoje meu pai faria 73 anos.

Dói.

What do you think?

Please keep your comments polite and on-topic.

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

comments

Oi, Carolina.
Descobri você hoje, via Decoeuração, depois fui até o Marketing na Cozinha e num dos comentários cheguei aqui. Devo ser a milionésima pessoa escreve para dizer que também perdeu o pai, que também era nova, que também tem um irmão bem mais novo. Por isso pensei em nem escrever. Quando vi a data em que o texto foi escrito, a lágrima desceu: meu pai faria 75 anos no dia 25 de outubro. Resolvi escrever para dizer que aqui também doi e que talvez o Drummond possa te consolar como me consola: http://www.memoriaviva.com.br/drummond/poema068.htm
Um beijo e parabéns pelos textos.

Miriam

20 de May de 2011

Caceta….que post triste…não deveria ter lido.

Juba Spaziani

30 de October de 2010

Caralho, meu.

Você escreve bem demais. Me identifico muito porque perdi meu pai há mais de 20 anos, e eu tinha apenas 07 anos, meu irmão 04. Isso ainda vai render um post no meu blog com o complemento de uma reviravolta que eu ainda estou sem entender.

Entendo sua dor, e concordo em 100% com suas palavras.

Um beijo

Leonardo Cohen

27 de October de 2010

Li no twitter sobre todo mundo ter chorado e pensei “duvido que algo me arranque lágrimas hoje”, mas, pois é, só sendo muito frio pra não se emocionar com esse post.

Sinto muito pela sua perda, de verdade.

Ferdi

27 de October de 2010

Incrível como vc é lindinha…

Perdas que mais cedo ou mais tarde, vão acontecer com todos.

Que o tempo que nos resta nesse mundo desordenado seja pleno.

1/2 Carolina Mendes

27 de October de 2010

Poxa, as coisas, pessoas e momentos especias são tão efemeros que nunca passam. Mas se não desfrutamos o máximo deles, fica a sensação de: Podia mais..

Quem bom que vc viveu e desfrutou o que podia dessa pessoa tão especial. E que te ‘moldou’ com excelência!

parabéns pelo texto! me emocionou deveras!

Beijos!

Ricardo Gelli

27 de October de 2010

Vc é um sujeito bacana, Gelli.

Bjo!

1/2 Carolina Mendes

27 de October de 2010

lindo texto, a ausência é realmente eterna e indescritível. A revista Vida simples tem este tema na capa este mês, lembrei de você.

Cafeína

27 de October de 2010

Vou procurar.

é bem foda sim, bjos!

1/2 Carolina Mendes

27 de October de 2010

Este teu texto maravilhoso me fez debulhar em lágrimas, pois perdi a minha mãe há exatos 20 dias, e a frase final, em que você escreve que “é fácil aceitar a morte, difícil é viver com o nunca mais”, é para dilacerar o coração de qualquer insensível…

ANSELMO PEREIRA RIBEIRO

27 de October de 2010

Putz, esses primeiros meses são um cu.

Força, bjos.

1/2 Carolina Mendes

27 de October de 2010

Carolina

Nem sei por onde começar. Não é novidade que leio e acompanho seu blog. Já chorei com posts seus http://x.co/JVpb.

Eu já tinha achado foda o seu amor pelo seu pai (remembering http://x.co/JVpL)

Há tempos que não comento aqui seus posts. Encontrei (ou tentei encontrar) outras formas de fazê-lo e há 30 minutos que tento escrever algo para impressioná-la e não consigo achar uma expressão melhor que: lindo.

Terno, eterno, doce, melancólico, humano.

Eu acredito em Deus, acredito na vida após a morte. Seja em que dimensão estiver seu Zeca (desculpe uma intimidade que efetivamente não tenho) está orgulhoso da vida que teve na Terra. Honrou e plantou a digna semente de uma família honrada. E trouxe ao mundo uma menina encantadora, perspicaz, de alma alegre, olhos tristes e coração bom.

Decididamente ele cumpriu sua missão.

Um doce beijo ao som de nada (the sound of silence is better).

PAZ!
AMOR!
ALEGRIA!
COMPAIXÃO!

JC

Purple Man from Brasil

26 de October de 2010

bjos!!!

1/2 Carolina Mendes

27 de October de 2010

Realmente, aceitar a morte é fácil, difícil é viver com o nunca mais.
Perdi o meu em 97, com 12 anos, mas o fato é que sempre parece q foi ontem!

dá um abraço!

Sil

26 de October de 2010

\o/

abraço

1/2 Carolina Mendes

27 de October de 2010

A forma como vc escreveu isso mexeu comigo… eu que sou muito distante.. que nao sei demonstrar sentimentos… em especial aos meus pais… isso me fez pensar mais…
obrigado! e continue escrevendo!!!

Karina

26 de October de 2010

Bjos e aproveite os pais. Nem que seja pra brigar, pra esclarecer, pra diminuir essa distância.

1/2 Carolina Mendes

26 de October de 2010

não sei como é isso. e… honestamente? tenho medo até de imaginar o que seria perder meu pai. NUNCA na minha vida consegui concluir essa idéia.

Eu, que ando melodramas e tragédias internas por esses dias, desabei aqui, por ter conseguido sentir toda essa ternura e carinho que, independente de ter já se passado 10 anos, ainda permanece aí dentro.

Certamente, ISSO foi algo que ele soube plantar muito bem no teu coração.

um beijo

regis.arima.junior

26 de October de 2010

Não conseguia me imaginar sem meu pai, embora a morte dele sempre fosse algo próximo.

É bem estranho, a maior parte do tempo não incomoda mais, mas quando incomoda, parece que foi ontem.

Bjo aceito.
🙂

1/2 Carolina Mendes

26 de October de 2010

Simplesmente tocante,as suas palavras!

Marcus

26 de October de 2010

São sinceras, Marcus.

Bjos, obrigada.

1/2 Carolina Mendes

26 de October de 2010

Uma história de vida fantástica. Sua mãe foi (desculpe o termo) ‘fodona’ e seu pai ainda mais. Não é pra se ter outra coisa que se não admiração, simpatia, amor e orgulho desta família aí. Agora eu sei quem é a Carolina Mendes,e por que ela é quem é…

Claudio R. King

26 de October de 2010

É só uma das histórias…

Pessoal doido por aqui….

1/2 Carolina Mendes

26 de October de 2010

Parabéns pelo post.

Me faz dar mais valor para meus velhinhos, já que eu ainda tenho a chance de curtir mais tempo com eles.

Tenho 30 anos, moro fora desde os 17… e graças a você, eu acabei de ligar para os dois, só para dizer o quanto eu os amo.

Obrigado.

maurigq

26 de October de 2010

De nada. Aproveite, fazem falta.

1/2 Carolina Mendes

26 de October de 2010

Obrigado, menina. Chorei. Precisava, e chorei.

Geraldo Maia

26 de October de 2010

De nada, Geraldo.

Bjo!

1/2 Carolina Mendes

26 de October de 2010

E eu que sempre fui muito afastado dos meus pais… Preciso rever meus conceitos.

Guilherme Reis

26 de October de 2010

A parte boa, é que nunca é tarde. Minha relação com meu pai melhorou bastante depois que eu fiquei mais velha e revi certas coisas.

Bjo!

1/2 Carolina Mendes

26 de October de 2010

Depois de ler tive que refazer parte da maquiagem que não era waterproof. Linda homenagem ao seu pai. Lovely.

XOXO

Diandra Fernandes

26 de October de 2010

Passei o dia de cara por isso, sabia o que me esperava…

Bjo!

1/2 Carolina Mendes

26 de October de 2010

É tocante, de fato, o jeito que você fala do seu saudoso pai nesses “posts”.

Defalchi

26 de October de 2010

Não saberia falar de outro jeito.

Bjos!

1/2 Carolina Mendes

26 de October de 2010

1 notes

  1. Tweets that mention nighty-night « Neosaldina Chick -- Topsy.com reblogged this and added:

    […] This post was mentioned on Twitter by Carolina Mendes, Carolina Mendes and Guilherme Reis, Mariana Golinelhi. Mariana Golinelhi said: Eu chorei! =/ RT @carolinamendes 10 anos sem pai http://twurl.nl/yh3jdy […]

%d bloggers like this: