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Primeira noite em Paris

18 de June de 2010

“Confidencial
Primeira noite em Paris

SPaulo, 1 de julho de 1994

Minha amadíssima filha,

Agora, sua mãe acabou de telefonar-me confirmando sua viagem à Europa. Fiquei e estou feliz. Sua viagem representa prá mim um sonho que estou realizando em você! Paris- Londres- Barcelona. Três cidades belíssimas, de três países que são o berço da nossa civilização.

Agora que você já chegou, e que (espero) tenha feito uma boa viagem feliz, quero tranquilizá-la quanto à 3 coisas: a) não se preocupe com o Téo* que o tratarei como um filho. b) Quanto ao Juliano, serei uma pae dedicado e extremoso, possibilitando diversão suficiente para que não sofra muito com a ausência da irmã. c) Cuidarei de mim, procurando fazer dieta e evitar o álcool, cuidando de tudo da melhor forma possível.

Quanto à você, espero que passeie o máximo possível, procurando entender a cultura que você está respirando.

Paris deve ser fascinante e peço a você que procure enxergar tudo com olhos de LINCE e compreensão de EINSTEIN, para poder me explicar tudo quando voltar.

Faça passeios dos adultos mas não se esqueça de sua adolescência. Procure teatro ou espetáculos que você queira curtir. Deve haver algum conjunto musical pra você ver e encantar-se. Tire fotos de tudo.

Procure ser companheira de sua mãe, e entender as rabugices dela. Afinal as pessoas envelhecem, ficam chatas e não se tocam. Paciência, ela é boa pessoa e como todos tem extensas limitações.

Quando estiver em Londres, não se esqueça de visitar alguns lugares:
Harrods- Loja fantástica (não esqueça meu pulover)
Liberty- Loja de tecidos, sensacional. (compre um corte de linho para camisa)
Disco- Loja de discos ma esquina da Oxford Street c/ Trafalgar.
Tate Gallery- é do cacete.
Metrô- Ande só de metrô porque é legal e barato 0,5 pound. Ah! Os ingleses chamam a libra de pound. Caso você precise de dinheiro, os bancos ingleses fazem o câmbio mas você vai precisar do seu passaporte.

Bem, eu queria escrever uma carta charmosa pra filhota mas, não consegui. Já fiquei velho, e como todo velho, sou chato. Dentro de minhas inúmeras limitações, não quero passar a você a imagem de um pai babacão.

Seja feliz, sempre.

Do (apenas) babaca, Zeca

PS: Me mande muitos cartões. Ficarei muito contente, vou mostrar pra todo mundo. Não adianta ficar chateada, tenho necessidade de falar sempre sobre você com as pessoas, porque tenho certeza que você será um dia o Zeca que deu certo. Te amo muito, beijos do pae.”

Recebi esta carta, pra ler na primeira noite da primeira viagem que eu fiz a Paris, do meu primeiro amor, meu pai. Sei que não é muito a pegada do blog, mas é um capítulo que fez de mim a pessoa que eu sou. Acho que perder este tipo de parceiro prematuramente (eu tinha 20 anos), seria ainda pior se eu não tivesse todas as cartas pra reler sempre que a coisa aperta. E a coisa sempre aperta.

*Téo era meu cachorro, um labrador diabético que tomava insulina 2 vezes por dia.

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comments

Permita-me dizer que me emocionei. Sou Pai e perdi o meu aos 8 anos. Enfim, também sou babaca ! Perdoe-me a invasão !

geraldo maia

8 de August de 2010

Acho que especialmente pais de meninas se sentem meio babacas.

Bjos!

1/2 Carolina Mendes

8 de August de 2010

Que bonito.

Que tocante.

Que humano.

Que foda.

Beijos ao som de http://bit.ly/bGVrUK

P. M. f Br.

A Man from Any Land

8 de August de 2010

Foda nada, a vida, isso sim.

1/2 Carolina Mendes

8 de August de 2010

Vou te dizer uma coisa: seu pai era um cara muito foda! E tendo a quem puxar, você também é fodinha😀

Adorei descobrir seu blog, foi amor à primeira leitura.

Bjs

Fabio Peixoto

24 de July de 2010

Acredite se quiser, fiquei sem pai também aos 20.
Infelizmente, carta nenhuma: as limitações eram muitas (mesmo antes de que a saúde se fosse), a chatice insustentável, a velhice um abismo.
Deixou dívidas, traumas, maus exemplos. Mas uma lição: pais são gente como a gente, humanos que tentam fazer a coisa certa e erram, miseravelmente.
Hoje, procuro ser o pai que gostaria de ter tido. O que é tarefa hercúlea. Mas, gratificante.
Colocar a filha na cama, fazer o bebê rir, ir ao Pacaembu com o mais velho? Nada supera.

verossimil

16 de July de 2010

Wow, lindo!

Horst

30 de June de 2010

Tbem adoro, bjo!

1/2 Carolina Mendes

30 de June de 2010

A perda de alguém é dolorida. E, como você disse, sem as lembranças “tangíveis”, seria bem pior. Belo post. Beijo. João Aranha.

João Aranha

18 de June de 2010

Bjo, obrigada!

1/2 Carolina Mendes

18 de June de 2010

Muito bom

g_l

18 de June de 2010

Dia meio estranho com a morte rondando. Aí acabo lembrando do meu pai.

1/2 Carolina Mendes

18 de June de 2010

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