You can scroll the shelf using and keys

Cinza

2 de July de 2009 , ,

Phelan Beale era um advogado americano neto de John D. Phelan, membro da Suprema Corte de Justiça do Alabama. De família rica, casou-se em 1917 na Catedral St. Patrick´s em NY com toda pompa e circunstância com Edith Ewing Bouvier, filha de seu sócio no escritório de advocacia Bouvier & Beale.

Em 1923/24, Phelan Beale e Edith Ewing Bouvier Beale compraram uma mansão de veraneio na pomposa cidade novaiorquina de East Hampton. Apenas 2 anos depois, Phelan e Edie se separaram e em 1931 se divorciaram. Edie ficou com a casa de praia,a filha do casal e praticamente nenhum dinheiro. Depois que Phelan abandonou a esposa e a filha, Edith mãe e Edith filha sem dinheiro entraram em décadas de decadência, pobreza e alienação na mansão.

Grey Gardens é como a casa das duas mulheres ficou chamada por causa da cor das dunas de areia os muros de cimento que a cercavam e o efeito que anos de maresia causaram. Tempo e abandono levaram a água corrente, o bom senso e trouxeram a casa, nas décadas que se seguiram, pulgas, gatos, ratazanas, lixo e um ar de excentricidade que resultou em artigos de 2 revistas americanas de prestígio. A exposição da surreal vida dessas mulheres chamou atenção de curiosos e do Departamento de Saúde que começou então a ameaça-las de despejo.

No verão de 72, as sobrinhas (e primas) socialites das mulheres Beale, Jackeline Onassis e sua irmã Lee, constrangidas pela reprovação da opinião pública providenciaram que reparos fossem feitos na casa, para que as normas de segurança e higiene do condado de Suffolk fossem atendidas e o despejo fosse evitado.

Os cineastas Albert e David Maysles se interessaram pela história toda e em 1975 filmaram um documentário que lançado em 1976 foi aclamado pela critica e atraiu atenção para as duas mulheres surrealmente educadas de gestos refinados que alienadas se transformaram em figuras caricatas de decadência.

Edie mãe morreu em 1977 e Edie filha vendeu a casa em 1979. Morreu em 2002 aos 84 anos. O ex editor do Washington post e sua mulher, depois da compra restauraram completamente a casa e seus jardins e hoje a alugam durante 11 meses do ano. Desde 1975, todos os envolvidos nas filmagens diante e atrás das câmeras continuaram explorando o interesse quase sádico das pessoas por esse espetáculo que quase 50 anos de isolamento provocaram.

É a versão americana de uma história que se repetiu ao redor do mundo. Dinheiro, poder, comodismo e decadência.

O espantoso do documentário é ver essas duas mulheres ignoradas pelos vizinhos ricos e as primas poderosas, felizes, cantando e dançando sobre pilhas de lixo e em meio a dezenas de animais, Edie filha envolta em echarpes e broches, mostrando álbuns de fotos de bailes de debutante, os gestos polidos e as declarações sem sentido. Os comentários da Edie mãe ainda parecem mais realistas mas, em momento nenhumum essas duas mulheres estavam deprimidas ou sentiam rancor.Basicamente 2 alienadas felizes em um mundo paralelo. É o limite da loucura, o auge da negação. Depois de assistir “Grey Gardens” mais de uma vez começo a pensar que talvez a vida não seja muito ruim quando se está maluca. São só mulheres paradas durante mais de 40 anos, esperando uma segunda chance que nunca chegou. E a vida passou.

Leio muito. Livros, jornais, blogs, ouço histórias, assisto o tempo passar depressa e as segundas, terceiras, quartas, chances não se materializarem. O país está se tornando nossa casa na praia. Mostramos aos curiosos nossas fotos de debutantes cercados por lixo, cantamos e dançamos no nosso delírio de felicidade, esperando que algo aconteça. Caminhamos pelo jardim e sorrimos para as câmeras. Na nossa colônia de férias chamada Brasil o clima é ameno, o tempo passa depressa e podemos esperar nossas chances, sentados.

Parados e distraídos com nossas lembranças, discos e bichinhos de estimação esquecemos de olhar pro lado. Percebemos que o tempo passou quando ligam as câmeras, e nos interrogam com microfones em riste. Se nossa prima rica se incomodar, dá um tapa nos nosso cortiço Brasil. Atenuada nossa desgraça o interesse acaba, nosso filme sai de cartaz e mais 40 anos se passam.

Ontem meu amigo Rodrigo Lamim comentou com frustração, depois de ver a não mobilização das pessoas nas passeatas pedindo a saída do Sarney da política, que temos mais senadores eleitos do que pessoas dispostas a protestar contra a corrupção. Nosso Bono Vox brasileiro Tico Santa Cruz escreveu em seu blog uma carta aberta parabenizando o Sarney e assumindo o fracasso das suas iniciativas. Começa assim, com apatia. Ou termina assim ainda não sei muito bem. Vou esperar o documentário pra saber.

What do you think?

Please keep your comments polite and on-topic.

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

comments

Sylvia, bom ver que manteremos contato e que o blog lhe agradou. Bjos, visite sempre e deixe mensagens.

carolina

5 de July de 2009

Rodrigo, não elegemos ninguém mas vivemos no país que é governado pelos políticos eleitos por outros. Voto comprado ou não. Se comprado, é por que a sociedade/governo/sistema (escolha a opção que lhe parecer mais acertada) ainda não incluiu todos, ou a maioria. Eu concordo com você e por isso escrevo, para compartilhar oq eu sei/penso e incluir, informar usando uma linguagem simples e textos coesos. De vez em quando alguem vai ler/comentar/pensar e talvez mudar. Chi va piano, va sano e va lontano. Não é assimq ue eles comem pelas beiradas e mantém o status quo? É assim que eu vou mudar o mundo…😉

carolina

5 de July de 2009

Vc deixou um recado que estava saindo do orkut, e deixou este seu endereço. Menina, AMEI! Adoro o jeito que vc escreve! De uma lucidez, que até dói! Parabéns! Vou te seguir…

Sylvia

5 de July de 2009

Não acho que a culpa seja do eleitor. O problema começa no governo, que não educa, propositalmente, a massa que elege. E este governo que está aí é ainda mais cruel, pois além de não educar compra os votos com programas assistenciais patéticos.Nós, leitores deste blog, não elegemos ninguém. O máximo que podemos fazer é influenciar os que elegem. Lula comandou a maior compra de votos da história e ninguém falou nada, ele é nosso Hugo Chaves Light, por enquanto.

Rodrigo Lamim

2 de July de 2009

"Os Incomodados que se mudem" é uma excelente forma de manter o StatusQuo. É válido para blogs, é válido para Governos, se EU for o Governante, claro. Quanto a quem vai segurar as faixas, são os mesmos que acham válido protestar. Não dá para fazer um protesto baseado sem legitimidade. Os que estão lá podem até estar sendo enganados, mas acreditam. Se ninguém acredita, entretanto, fazer o quê?

cardoso

2 de July de 2009

Ingênuo pra caralho, mas alguém tem que pontuar o texto.

carolina

2 de July de 2009

A questão é: a gente devia se preocupar, parar pra pensar, parar, pensar, protestar ou subir os muros da nossa casa de praia, deixar a decadência bater na nossa porta e foda-se? Enquanto a gente pensa e observa, quem segura as faixas nos protestos? As pessoas que tem opinião sobre nossa opinião, sabem oq os próprios filhos, maridos e mulheres pensam a respeito do mesmo assunto? O cara que chamou de puta e me mandou calar a boca pq eu reclamei dele estar buzinando a 1 da manhã feito um debilóide me deixaria estacionar na frente da casa dele ocupando só um pedacinho da guia rebaixada sem reclamar? Se a gente passar pela vida sem incomodar os outros, o universo garante que ninguém vai nos incomodar? Se eu for espiar oq tem fora desse mundinho e não gostar da vista, posso voltar?Dá pra voltar ou é melhor nem sair e "Que será, será"? Passa o vinho?

carolina

2 de July de 2009

Eu não acredito mais nesse país. Ficar chorando sobre um congresso e um senado corrupto, é no mínimo uma ingenuidade. Os culpados não são os políticos. Mas sim, os eleitores, que em sua grande maioria são burros."Na democracia, todos pagam pela burrice da maioria"

mSpawn

2 de July de 2009

Curioso. Eu conheço uma mulher que é EXATAMENTE isso. Muito rica, perdeu tudo, é balconista de loja, faz biscate mas anda com as roupas finas, já esfarrapando. Não é patético, não é triste pois ela não é triste. É viver em um mundo a parte. A questão é: Quem está nesse mundinho? Eles? Nós?

cardoso

2 de July de 2009

%d bloggers like this: